
Fomos “depositados” no GA7, (Grupo de Artilharia 7) sede coordenadora dos pelotões de Artilharia espalhados pela Guiné. Éramos meia dúzia.
Hora tardia, a recepção e apresentações hierárquicas ficariam para o dia seguinte.
De interesse imediato, arranjar algo refrescante que empurrasse o nó da garganta, a possível integração social, de preferência miliciana – o BAR!
Rostos, um mais duro que outros, tez sarracenas , conversas circunstanciais, um aglutinador comum, o álcool, maioritária a cerveja.
A um canto, uma mesa de “velhinhos”, muitas palavras sonoramente proferidas, pouca conversa. Engatilham as palavras, os palavrões, muitas gargalhadas, poucos risos, nenhum sorriso. Bebe-se e muito.
Não conheço ninguém, parece-me! Desfilando os olhos pelos rostos, há uma figura que me é familiar. O João!
Era do curso anterior ao meu, estivéramos em Vendas Novas os dois. Algarvio, de falar musicado, brincalhão, gémeo do Basílio que também estava na mesma especialidade. Fora mobilizado cerca de quatro meses antes. Um exemplo da desumanização de uma política de um regime. Como disse eram gémeos, o João e o Basílio. Meses antes, o Basílio adoeceu, e acabou por ir para o Hospital militar da Estrela. Faleceu vítima de uma leucemia. Para todos nós companheiros foi uma dor grande. Para os pais e para o João foi enorme. Três meses depois o velho carteiro ficou de novo só na aldeia. Notícias do filho João, uma deferência, um “privilégio” em primeira-mão, o correio. O seu agora único filho João fora mobilizado para a Guiné.
E ali estava ele, um arrastar das palavras, um olhar ausente. Abordei-o como bóia de salvação, perdido naquele mar de indiferenças. Estava bêbado! Abraçamo-nos, evocamos a nossa comunhão, em silenciosa cumplicidade, o Basílio ausente.
Estado quase normal diário, disseram-me. Estava irreconhecível, caustico, em permanente desafio de riscos. Doeu-me, certamente não era a melhor bóia de salvação que encontrara. Também se afundava, farrapo anunciado!
No dia seguinte, apresentei-me ao segundo comandante, como era rotina e estabelecido.
Lembrou-me ao que vinha, com voz pausada, informou-me que iria integrar o 6º pelotão, sitiado em Tite. Não me dizia absolutamente nada. Bom? Mau? O único lugar que sabia bom e que conhecia…era Lisboa, mas para aí não me mandavam!Deixei o gabinete, com o meu 1º acto em teatro de guerra, um "bater de pala" e calcanhares exemplares!
Para onde vais, perguntavam-me. Tite! Silêncios, sobrolhos carregados, meias palavras, insinuações, sorrisos enigmáticos, observações pertinentes conhecedoras, outras não, observações destituídas de crédito, decidi, para meu saneamento mental!
No outro dia, de novo em movimento, de novo conduzido! Atravessei o Geba numa lancha LDG (lancha de desembarque grande). Do outro lado do rio, frente a Bissau, Enxudé, cais beira-rio, posto avançado do batalhão de TITE.
Começava uma nova etapa, um ano de novos desafios, um presenciar de sobrevivências, vivências!