
Saí, ainda nem sete eram, entrei numa campânula Os meus passos, por mais rápidos que fossem não levavam os olhos para além de 10 metros. Nevoeiro e silêncio.
Iniciei a minha caminhada com os meus companheiros de jornada.
Ela, loira, esbelta, olho castanho. Talvez setenta anos de cão, mistura de podengo e perdigueiro, há 11 anos quase a morrer “chorando” à minha porta, doente, esfomeada, pele e osso! Skiny, pois claro, tinha que ser baptizada. E como nas histórias do maravilhoso, hoje coroada de princesa.
Ele, talvez cinco meses de puro vira latas, recolhido em plena estrada, muita carraça e pulga, pouca carne, nenhum músculo. Luky, pois claro, é o nome. Olhar meigo, (diz a minha filha que ele é vesgo), reposto o estômago à custa de muita ração, vitaminas e carinho, parece que se faz um cão interessante, se me é permitido entender as apreciações caninas.Trapalhão, tal como todos os cachorros, corre porque corre, corre porque vê correr, corre porque sim, e porque não havia de correr? Morde tudo e ainda perde dentes!
Com estas companhias, avanço transportando o limite sempre mutante da parede de nevoeiro. 10 metros, talvez nem tanto. Para onde foram as ramagens, os troncos frondosos que me costumam acolher? Só estes, neste perímetro.
E as pedras de cortes e formas que me estimulam a criatividade por analogia? Não mais que estas, neste raio.
E o meu Sol?
Reparo que à medida que avanço, reconheço o trilho, mas apago sempre algo para trás. A névoa intensa, esconde o antes, o que há-de vir. Só eu, os meus cães, o Universo do alcance da minha vista, o momento.
Estendo a mão, cuidadosamente. Ali, negra, húmida de orvalho, fresca. Gulosamente transporto-me a outras memórias, tantos anos. Não há nevoeiro que me impeça, me limite. Continuam deliciosas, as amoras silvestres, quão agrestes as silvas!
Um surdo ruído prolongado.Um avião vai, vem… passa. Não o vejo. Polui o momento, rasga o silêncio! Parece que as partículas densas prolongam o som. Intenso.
Retomo a minha vereda impregnada de cores, baços verdes luzidios, castanhos molhados, amarelos em pétalas selvagens, bagas escarlate.
Odores, tenras folhas de eucaliptos, a terra que se liberta do sereno da noite, hortelã bravia, outros!
Enchi os pulmões da minha alma, em pleno.
Bom dia!